Momento Pelé.

Site no.com.br
Confesso que esperei que o Rei fosse bancar até o fim as mudanças que “sua” lei iniciou. Ilusão de torcedora! Pelé aderiu à cartolagem
Depois da força que recebi do Tostão e do Nilton Santos pela estréia da coluna, pensei na possibilidade de largar logo de cara essa minha mais nova atividade. Elogios de ídolo valem em dobro. Me dão a sensação de estar num Maracanã lotado, com a torcida berrando “Elena, Elena”. É o topo da carreira. Daqui, acho, deve ser só ladeira abaixo. Por isso, imaginei a possibilidade de viver meu “momento Pelé”, abandonando o colunismo esportivo do mesmo jeito que o Rei deixou o futebol – no auge.
Longe da bola, infelizmente, ele não tem se preocupado em ficar muito por cima. Uma pena. Até porque, seu início de carreira pós-futebol não foi ruim. Como ministro, patrocinou a Lei que leva seu nome e que foi responsável pelas primeiras parcerias entre investidores e times de futebol no Brasil. Confesso que esperei que o Rei fosse bancar até o fim as mudanças que a “sua” Lei iniciou. Ilusão de torcedora! Pelé aderiu à cartolagem.
Na decisão do carioca de domingo, vão estar em campo Vasco e Flamengo, os dois únicos times do Rio que firmaram acordos de longo prazo com investidores ainda no contexto da Lei Pelé original. O Flamengo fechou com uma empresa de tradição no marketing esportivo, a ISL. O Vasco foi de parceiro financeiro, o Bank of America. Apesar dos perfis diferentes, os investidores fizeram acordos muito semelhantes.
Em linhas gerais, rezam que o investidor, em troca de pagamento antecipado, recebe o direito de administrar a marca do clube por um longo prazo. Parte desse arranjo contratual dita que os investidores não podem se meter no departamento de futebol. Na teoria, a coisa funcionaria assim: o clube escala o time; o investidor cuida do marketing. Esta cláusula foi defendida com orgulho por clubes e investidores.
Pura ficção. Na prática, a autonomia dos dirigentes na gestão direta do departamento de futebol só gerou mais confusão e muito desperdício. Apesar da montanha de dinheiro que os clubes receberam, eles continuam nadando em dívidas. Os esportes olímpicos, ao invés de crescerem no vácuo do futebol como se esperava, voltaram a correr atrás do dinheiro público para sobreviver. A pindaíba geral, continua como antes. Fica difícil para os torcedores entenderem porque os investidores aceitaram esse jogo de faz de conta e abriram mão de fazer aquilo que mais se esperava deles: a gestão do dinheiro.
Os recursos que caíram nos cofres de Vasco e Flamengo com estas parcerias são o pagamento dos investidores pelo aluguel e administração de suas marcas – coisa que inclui direitos de transmissão de jogos, patrocínio na camisa, material esportivo, transação de atletas e, em alguns casos, estádio. Quando o clube aluga esses direitos por muitos anos, não há mais de onde retirar recursos novos.
Portanto, deveria ser de responsabilidade dos parceiros fiscalizar a utilização desses recursos iniciais que, aliás, vêm de fonte não renovável. Impossível vender duas vezes direitos de transmissão, por exemplo, embora a criatividade dos cartolas não tenha limite. O Botafogo, duro que nem ele só, cedeu ao Globo.com, por 1, 8 milhões de reais, os seus direitos de Internet. O prazo é, juro, de 35 anos. O dinheiro que chega já vai para pagar salários atrasados. E por 35 anos, o Botafogo dificilmente conseguirá espremer qualquer novo centavo em Internet. Um negoção.
O Botafogo não tem parceiro investidor. Mas entre aqueles que têm, Vasco e Flamengo, o mau uso do dinheiro é a praxe. Lembram do Mozart, aquele volante fracotinho, que chegou ao Flamengo com ares e preço de mega-craque no ano passado? Pois é, sumiu. Quando Mozart começou a demonstrar sua excelência como cabeça de bagre, a ISL reagiu como a equipe econômica do governo diante do apagão. Disse que não tinha nada a ver com a contratação. Pois deveria ter.
A falta de cuidados do Bank of America com seus investimentos no Vasco não é menos impressionante. Os dois parceiros constituíram a VGL, uma empresa de licenciamentos que tem explorado a marca cruz-maltina com competência. Mas o banco teve a ingenuidade de depositar milhões numa conta indicada por dirigentes vascaínos em nome de um funcionário do clube.
Não é à toa que essas parcerias não vão bem. A ISL quebrou, Vasco e banqueiros brigam e ambos os clubes estão sem dinheiro. Mais grave, estão sem fonte nova de recursos. São parcerias, por isso mesmo, sem futuro. E o torcedor, que no fundo é quem dá valor a uma marca no futebol, que se dane.
Os dois clubes hoje procuram novos parceiros. É uma boa oportunidade para que futuros investidores – se houver – mudem a qualidade da administração dos recursos. Planejamento e controle orçamentário não devem ser confundidos com escalação do time. Cada parceiro na sua especialidade.
Fluminense e Botafogo ficaram para trás neste movimento de exploração comercial de sua marca. O time tricolor criou a empresa FluLic com a NewSport. Foi um contrato experimental e não há notícias se haverá renovação desta parceria. O Botafogo nada. Aí certamente vão apelar para incentivos fiscais e todo tipo de acesso a dinheiro público.
* Elena Landau é economista e botafoguense

