Será Fachin nosso Eliot Ness nesta grande Chicago com crime organizado mandando e Poderes cooptados?

Será Fachin nosso Eliot Ness nesta grande Chicago com crime organizado mandando e Poderes cooptados?

Andy Garcia (atirador de elite), Sean Connery (policial veterano), Kevin Costner (Eliot Ness) e Charles Martin Smith (contador), em ‘Os Intocáveis’, de 1987, dirigido por Brian De Palma Foto: Reprodução.

O imbróglio envolve os Três Poderes: Executivo e Legislativo estão enrolados no Master; e, não por acaso, há cheiro de pizza no ar. É uma crise da democracia, que vem sendo corroída por dentro.

Tentando me distanciar das notícias sobre o STF, dediquei o feriado aos filmes e aos livros. Na busca pelo streaming apareceu Os Intocáveis, de Brian De Palma. Era o destino me chamando. Resolvi assistir pela décima vez.

A história é conhecida. Em uma Chicago dominada por Al Capone, e com instituições apodrecidas, Eliot Ness entra em ação. Boicotado pelos seus pares e ridicularizado na imprensa em sua primeira ação, acaba formando uma equipe improvável: um contador, um novato e um policial de rua que vira seu mentor, Malone. Todos fora do sistema. E o bem vence o mal, no mais puro estilo hollywoodiano.

Ainda que na ficção, estava precisando acreditar nisso. Inevitável pensar no Brasil como uma grande Chicago: crime organizado mandando e os Poderes cooptados.

No filme, Intocáveis é o grupo de Ness. Por aqui foi o STF que recebeu o apelido, pelo motivo errado: apesar dos indícios de tantos malfeitos, nada os alcançava. Mas o relatório de Mendonça mudou as coisa: trouxe 51 mensagens entre Moraes e Vorcaro.

O tom e os palavrões mostram a intimidade dos dois. Nada de Sua Excelência, nem um mísero “senhor ministro”. A edição do contrato milionário, feita por Moraes “na condição de marido”, foi exposta.

Infelizmente, a crise – previsível e, portanto, evitável – explodiu em plena eleição e reflete a mesma polarização das urnas; cada grupo com seu ministro de estimação e às favas os fatos. Moraes deveria se afastar voluntariamente e poupar o STF desta batalha pública entre ministros. Mas não vai.

No confronto, o mérito da questão deu lugar a manobras processuais para buscar a nulidade das investigações; o fim da Lava-Jato ensinou o caminho. Também não se pode esquecer que a Corte aprovou o Inquérito Infame e o silêncio diante de arbitrariedades do ministro, durante sete longos anos, nos trouxe até aqui.

O imbróglio envolve os Três Poderes: Executivo e Legislativo estão enrolados no Master; e, não por acaso, há cheiro de pizza no ar. É uma crise da democracia, que vem sendo corroída por dentro, em um Golpe Cupim. Mas estou até cautelosamente otimista. Chegamos à beira do precipício, não imagino que darão um passo à frente.

No filme, Malone, em interpretação inesquecível de Sean Connery, alerta Ness: “Buscar gente no barril de maçãs trará maçãs podres; colha direto da árvore”. Conseguirá Fachin virar o jogo? Onde vai colher suas maçãs?

PS: lendo O que podemos saber, de Ian McEwan, me deparei com esta frase: “Uma nação é tão grande e tão cheia de ideias que é necessária uma boa dose de loucura deliberada para arruinar tudo”. É isso.

 

 

Elena Landau é Economista e Advogada.


 

 

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