Será Fachin nosso Eliot Ness nesta grande Chicago com crime organizado mandando e Poderes cooptados?

O imbróglio envolve os Três Poderes: Executivo e Legislativo estão enrolados no Master; e, não por acaso, há cheiro de pizza no ar. É uma crise da democracia, que vem sendo corroída por dentro.
Tentando me distanciar das notícias sobre o STF, dediquei o feriado aos filmes e aos livros. Na busca pelo streaming apareceu Os Intocáveis, de Brian De Palma. Era o destino me chamando. Resolvi assistir pela décima vez.
A história é conhecida. Em uma Chicago dominada por Al Capone, e com instituições apodrecidas, Eliot Ness entra em ação. Boicotado pelos seus pares e ridicularizado na imprensa em sua primeira ação, acaba formando uma equipe improvável: um contador, um novato e um policial de rua que vira seu mentor, Malone. Todos fora do sistema. E o bem vence o mal, no mais puro estilo hollywoodiano.
Ainda que na ficção, estava precisando acreditar nisso. Inevitável pensar no Brasil como uma grande Chicago: crime organizado mandando e os Poderes cooptados.
No filme, Intocáveis é o grupo de Ness. Por aqui foi o STF que recebeu o apelido, pelo motivo errado: apesar dos indícios de tantos malfeitos, nada os alcançava. Mas o relatório de Mendonça mudou as coisa: trouxe 51 mensagens entre Moraes e Vorcaro.
O tom e os palavrões mostram a intimidade dos dois. Nada de Sua Excelência, nem um mísero “senhor ministro”. A edição do contrato milionário, feita por Moraes “na condição de marido”, foi exposta.
Infelizmente, a crise – previsível e, portanto, evitável – explodiu em plena eleição e reflete a mesma polarização das urnas; cada grupo com seu ministro de estimação e às favas os fatos. Moraes deveria se afastar voluntariamente e poupar o STF desta batalha pública entre ministros. Mas não vai.
No confronto, o mérito da questão deu lugar a manobras processuais para buscar a nulidade das investigações; o fim da Lava-Jato ensinou o caminho. Também não se pode esquecer que a Corte aprovou o Inquérito Infame e o silêncio diante de arbitrariedades do ministro, durante sete longos anos, nos trouxe até aqui.
O imbróglio envolve os Três Poderes: Executivo e Legislativo estão enrolados no Master; e, não por acaso, há cheiro de pizza no ar. É uma crise da democracia, que vem sendo corroída por dentro, em um Golpe Cupim. Mas estou até cautelosamente otimista. Chegamos à beira do precipício, não imagino que darão um passo à frente.
No filme, Malone, em interpretação inesquecível de Sean Connery, alerta Ness: “Buscar gente no barril de maçãs trará maçãs podres; colha direto da árvore”. Conseguirá Fachin virar o jogo? Onde vai colher suas maçãs?
PS: lendo O que podemos saber, de Ian McEwan, me deparei com esta frase: “Uma nação é tão grande e tão cheia de ideias que é necessária uma boa dose de loucura deliberada para arruinar tudo”. É isso.
Elena Landau é Economista e Advogada.


