Não há nada que proteja uma estatal da tentação populista.

Não há nada que proteja uma estatal da tentação populista.

Todas as privatizações entregues ao Congresso por Bolsonaro já estavam na agenda, sem grandes novidades. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Por mais relevante e urgente que seja privatizar tudo neste País, usar uma MP é uma péssima ideia.

Agora vai. Governo resolveu mostrar aos incrédulos que é liberal. Alguém compra isso? Por maior que seja o estado de negação, não dá. Foi preciso a desastrosa intervenção na Petrobrás para que muita gente acordasse, depois de mais de dois anos de ataques cotidianos às bases da democracia liberal e da sociedade plural, aberta e livre.

Mas estava tudo bem, afinal, ainda tinha o “Posto Ipiranga” como fiador. Nem todas as evidências de que Guedes não implementou, nem vai implementar, nada do que prometeu foram suficientes para tirar muitos do torpor. Até que o presidente demitiu Castello Branco. De repente, as mentes se abriram. Descobriu-se que Bolsonaro é, de fato, Bolsonaro. Tosco, autoritário e intervencionista. Não se pode dizer que ele rasgou a fantasia, já que nunca se deu ao trabalho de vesti-la.

No atropelo para agradar caminhoneiros, desobedeceu às leis que regem as sociedades de economia mista e tomara que responda judicialmente por isso. Minoritários não querem saber de julgamento político, é jurídico mesmo. Engana-se quem acha que o grande perdedor foi a Faria Lima. Em um único dia, o patrimônio público derreteu. A perda do valor da participação da União nas estatais foi equivalente a dois anos de Bolsa Família. A lição deveria ter sido aprendida após os anos de PT. Mas populismo não tem ideologia.

Populistas abusam do Estado e aprisionam o povo. Só uma verdadeira reforma liberal pode combater essa doença ao diminuir o campo de ação das saúvas.

Para acalmar “os mercados”, o governo saiu anunciando privatizações. Acrescentou dezenas de concessões às centenas já existentes no PPI. De 8 em 8 km iremos asfaltar o País, é o lema. Em seguida, propôs uma medida provisória para incluir a Eletrobrás no PND e apresentou um projeto de lei para reestruturar e, não necessariamente, vender os Correios. Tudo já estava na agenda. Nenhuma estatal a mais.

Usar MP para privatizar é péssima ideia e precedente grave. Neste caso, é até inconstitucional. Por mais relevante e urgente que seja privatizar tudo neste País, a MP 1.031 não atende aos requisitos legais. Já havia um PL sobre o assunto que poderia receber emendas da base do governo.

A grande motivação de Bolsonaro não é diminuir o número de estatais, ele não se importa com isso. Ao contrário, precisa delas para negociar com seus novos aliados. A urgência dele é conseguir uma forma de cumprir com a promessa de reduzir tarifas. Como não entende nada do assunto, foi convencido que só com a capitalização da Eletrobrás isso seria possível. A MP aumentou o volume de recursos a serem transferidos para o fundo setorial (CDE) e, com isso, abater encargos e compensar subsídios, muitos deles desnecessários, que oneram as tarifas.

Mas isso não acontece da noite para o dia. Uma operação desse porte leva alguns meses e quando o dinheiro chegar será tarde para influenciar na campanha da reeleição. Ou esqueceram de avisar o chefe ou ainda vem algum truque por aí para antecipar o uso de recursos. Como o teto anda desmoronando, pode até acontecer.

O BNDES está autorizado a começar os estudos mesmo que a MP venha a caducar, o banco tem pelo menos 120 dias para terminar o trabalho. É um prazo curto. Tradicionalmente, leva 18 meses, em média. Tudo indica que vai acabar só por carimbar e, assim, dar auras de legitimidade a um processo predefinido. Não pode propor modificação alguma para aprimorar a venda. Para mudar algo, a lei também teria de ser adaptada e novo PL enviado. Segundo o secretário de Desestatização, caberá ao banco apenas o serviço de due diligence.

A venda da maior empresa de energia da América Latina demandaria um estudo mais profundo. No mínimo, deveria analisar o impacto de passar para o setor privado uma empresa que pode deter, sozinha, 40% do mercado. O Cade deveria participar. A democratização do capital não tem nenhuma relação com competição no setor de geração – elemento-chave para definição de preços, especialmente quando se espera um crescimento do mercado de consumidores livres.

O BNDES também deveria analisar prós e contras de se antecipar a renovação de Tucuruí e, ainda, participar da estruturação da cisão, que manterá Eletronuclear e Itaipu nas mãos do governo.

Toda privatização enfrenta a decisão de múltiplos objetivos: deve priorizar o ganho para o Tesouro ou a redução das tarifas, em caso de serviços públicos. Mas deve ir além, contribuindo para o redesenho do setor aumentando a eficiência da operação. Não faz sentido simplesmente transferir tamanho poder de mercado do setor público para o setor privado, especialmente quando se trata de setor não regulado, como a geração de energia.

Governo partiu para o tudo ou nada. Imagino que com risco calculado, já que incluiu novas transferências para fundos regionais para agradar à base. Se a MP caducar, acaba de vez. Mesmo discordando do modelo e do processo, é importante que essa privatização, e muitas outras, aconteçam para proteger o patrimônio público.

Não há lei, não há governança, não há nada que proteja uma estatal da tentação populista.

 

Elena Landau é Economista e Advogada.


 

 

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