O império do medo.

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Wanderley Luxemburgo não falha. Toda vez que emite alguma opinião sobre futebol, distribui críticas para todos os lados
Wanderley Luxemburgo não falha. Toda vez que emite alguma opinião sobre futebol, distribui críticas para todos os lados com o objetivo de proteger a figura do técnico. Esta semana, o douto professor criticou a tabela do campeonato brasileiro, que como qualquer tabela de qualquer campeonato de qualquer modalidade esportiva no mundo, reserva para a reta final aquelas partidas com potencial para gerar melhor competição e, portanto, maior público.
Luxemburgo é contra a concentração de clássicos na reta final do brasileiro. Clássicos seguidos aumentam a possibilidade de instabilidade e, portanto, de demissão dele e de seus colegas de profissão. Parece que o técnico é no fundo uma vítima – dos avanços dos adversários, da decadência técnica de seus jogadores, dos disparates dos dirigentes, das cobranças da torcida – que, se deixado em paz para trabalhar, salva qualquer pátria, seja num clube, seja na seleção.
Suas declarações não são surpreendentes. Desde que, por obra da geração de técnicos como ele, Leão e Felipão, transformou-se o cargo de técnico numa instituição acima do bem e do mal, o futebol brasileiro foi gradativamente tomando horror à competição e ao risco. É isso, no fundo, o mal que assola o nosso futebol dentro do gramado. Quando um técnico escala três zagueiros e dois volantes contra um time freguês como o do Chile, ele não demonstra vontade de ganhar. Apenas medo de perder.
A opção pela mediocridade vem de longe. É sempre bom lembrar que Edilson, hoje utilizado como exemplo do futebol arte, foi cortado da seleção por doutor Luxemburgo, justamente porque deu vazão ao seu lado moleque e fez embaixadinhas num jogo entre Corínthians e Palmeiras. Luxemburgo, à época, considerou o ato um desrespeito. Mas silenciou sobre a reação desmesurada de Paulo Nunes que partiu resoluto para quebrar a cara do colega.
Verdade seja dita, alguns colegas da imprensa, que agora também reclamam da falta de arte no futebol, apoiaram o técnico naquela época. Por isso mesmo, a polêmica levantada esta semana pelo técnico da seleção, menosprezando os craques do passado, é falsa. Dentro do esquema atual de Felipão, aonde vicejam Emersons e Juninho Paulista fica no banco, o mundo não chegaria a ver Garrincha vestir a camisa da seleção, mesmo porque, ao primeiro lampejo de genialidade, viria um brucutu para decepar-lhe as pernas sob a complacência do juiz e o aplauso do técnico.
Com essa mentalidade imperando dentro do gramado, o futuro das novas ligas cheira à desastre. Afinal, um dos motivos aventados para a sua criação é justamente realizar jogos que sejam dignos da qualificação de clássicos. Se os técnicos se assustam com essa possibilidade, armam seus times na defesa, em torno de jogadores hábeis na pancadaria, o máximo de espetáculo que vamos ver é algo semelhante ao último Brasil e Chile. É pouco.
O Botafogo do Rio
Sou botafoguense, completamente apaixonada pelo time e, por isso mesmo, me policio demais para não ficar utilizando este espaço apenas para falar do meu clube. Mas é difícil resistir aos apelos da torcida. Com o desempenho recente do time,venho recebendo uma avalanche de mensagens emocionadas de alvinegros achando que o Botafogo vai sumir. Na batida em que segue, talvez ele não suma mas certamente se encaminha para ser conhecido mais como bairro do que como clube de futebol. E isso no Rio de Janeiro.
Para o resto do país, seremos apenas outro Botafogo. Dá uma dor no peito ouvir a TV Globo qualificar o Glorioso como o Botafogo “do Rio”. Até um tempo atrás, para a audiência da Globo, Ribeirão Preto tinha um Botafogo mas o Botafogo mesmo era o do Rio. Ele era tão Botafogo que dispensava a qualificação geográfica. Não mais.
O pior é que as chances de recuperação são cada vez menores. A atual diretoria empenhou toda a capacidade futura de geração de receita do clube para montar um timeco, cujo desempenho, por sinal, nem parece incomodar os cartolas. Só abrem a boca para disciplinar jogadores que reclamam do atraso de salários. E nessa lá se foi o Valdson e ficamos com Denis, Junior e Wilson. Pior, a realidade parece não bater à porta: vem Dodô para ficar no banco.
O Botafogo saiu de jogo há alguns anos. Como diz um leitor, “Somos hoje um clube pequeno com uma grande torcida”, lembrando que há três anos o time não disputa títulos, entra em campeonatos apenas com o humilhante objetivo de não ser rebaixado. E pior não tem nenhum craque. Para um time que já contribuiu com jogadores como Nilton Santos, Garrincha e Jairzinho, é realmente muito triste. É, mas isso foi no tempo que a gente amarrava cachorro com salsicha. Bons tempos.
Diante desse quadro, chega a ser comovente descobrir que ainda tem gente, como o leitor Marcelo Barreto, ele próprio de uma geração sofredora,com seus 33 anos, cujos quatro filhos são alvinegros apesar de tantas derrotas e tantas frustrações. É um verdadeiro feito. Time que não faz história não gera torcida. E sem torcida, qual o futuro de um time?
* Elena Landau é economista e botafoguense

